GREEN BOOK, 2018
Finalmente assisti ao filme que fez o diretor Spike Lee dar ataque de piti no Oscar. E ele tem uma certa razão. Vamos conversar sobre isso e sobre o amadurecimento do diretor Peter Farrelly, uma das coisas que mais me surpreenderam no longa.
TONY E DON SHIRLEY
O filme é um roadie movie da melhor qualidade. Conta a história do músico virtuoso Don Shirley e sua turnê pelo sul dos estados unidos na década de 60, acompanhado pelo seu motorista branco, o italiano Tony Vallelonga. Com o famoso restaurante Copacabana passando por uma reforma, ele arruma um bico como motorista, numa turnê com durabilidade prevista para dois meses.
MAHERSHALA / DON SHIRLEY
Filho de jamaicanos, sendo seu um pai sacerdote e sua mãe professora, teve seu primeiro contato com o piano aos dois anos de idade. Já aos sete anos, passou a estudar na Leningrad Conservatory of Music. Aos dezoito anos, se apresentou com a orquestra de Boston tocando o Concerto para Piano nº 1, de Tchaikovsky. Apesar de amar a música clássica, foi orientado pelo seu empresário a tocar jazz. Sendo assim, reuniu mais dois músicos e formou a Don Shirley Trio. O ator fez um trabalho excepcional. Apesar da pouca experiência, ele não se intimida hora nenhuma e ainda sai premiado com o Oscar.
VALLELONGA / MORTENSEN
Tony Vallelonga foi também segurança. Na época em que se passa o filme, o Copacabana havia acabado de fechar para reformas e ele aceitou a empreitada. De família tradicional italiana, o racismo é quase um hábito, por assim dizer. Ele não faz a crítica dura, não deseja a segregação, mas aceita as condições impostas pela sociedade á época. Violento, na maioria das vezes usa da força para se defender. Viggo Mortensen dá um show como Tony. Seu italiano está perfeito, com os trejeitos característicos, sem mencionar o sotaque.
TONY E DON SHIRLEY
O filme é muito, mas muito bom. As atuações, a fotografia e, principalmente a direção de Peter Farrelly são o ponto alto. Aliás, como pode um diretor de filmes como Quem Vai Ficar com Mary, Eu, Eu Mesmo e Irene, tenha executado um filme tão bem amarrado com as relações humanas. Não vejo um único traço daquele diretor escatológico de filmes de comédia nonsense. Débi e Lóide? Esquece. Temos aqui um diretor maduro e consciente da sua colaboração para a sétima arte. Não a toa, saiu com o Oscar de melhor filme e melhor roteiro, co-escrito pelo filho de Tony, Nick Vallelonga.
POLÊMICA COM SPIKE LEE
Apesar de amar Spike Lee de coração e alma, confesso que ele é um pouco cheio de si, esnobe. Ao saber que o longa havia ganho o Oscar, o diretor ficou de costas durante o discurso de Peter Farrelly. De acordo com o próprio diretor, ele "sempre perde quando tem alguém dirigindo pra alguém", fazendo uma clara referência ao ano de 1989 quando Conduzindo Miss Daisy disputou com Faça a Coisa Certa. Logo depois o diretor emendou que não podia reclamar, pois na época, nem nomeado havia sido. Na verdade no que diz respeito a abordagem do filme, ele está até certo.
O filme tem críticas á segregação racial, mas ele é visto pelo ponto de vista do motorista, um italiano branco. Ou seja, não tem como ele passar os sentimentos sofridos pelo personagem de Don Shirley. Acredite, ele tenta e até consegue, mas no que diz respeito ao sofrimento dos negros, principalmente no sul dos estados unidos, o que se mostra não fez justiça aos acontecimentos. O personagem de Viggo, por exemplo, joga fora dois copos em que fora servido água a dois trabalhadores negros que foram consertar um cano na sua casa. Sua esposa retira os copos do lixo e os recoloca na pia. Entendo que o racismo de Tony é aquele passado pelos pais, e não "vivido" por ele. Fica mais fácil olhar pelo lado humano.
É um filme pra ser visto e revisto, principalmente pela amizade dos dois, que perdurou por anos. As cenas em que o pianista o ajuda a escrever cartas para sua esposa, são um dos pontos altos do filme. Ambos faleceram em 2013.
RR






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